O objetivo desta comunicação é pensar algumas questões que circulam no universo educacional.
A modernidade traz para os sujeitos a idéia de um gozo imediato, onde consumo, modismo, internet, enfim, a busca frenética pela felicidade e o sucesso, colocam o professor em uma posição diria, no mínimo, frágil. Pois é pouco atrativo, e não consegue se equiparar a esses objetos de prazer.
A Escola vem enfrentando um desgaste e um desinvestimento do aluno frente aos estudos. O conhecimento se tornou descartável e volátil.
Neste cenário que vem se construindo ao longo dos anos, muitos ficaram ocupados em encontrar culpados, como uma eterna caça as bruxas. Isto em nada contribui para o espaço escolar e muito menos para crianças e jovens, que foram apontados ao longo deste conflito como sujeitos doentes.
Sabemos que o humano tem dificuldades em lidar com aquilo que não se homogeniza. A escola que deveria ser um espaço de convívio de diferenças acaba sendo a primeira a indicar alternativas para que tudo se resolva fora do espaço escolar. Testemunhamos a terceirização da aprendizagem por terapeutas, psicólogos, psicopedagogos, médicos. Hoje podemos apontar que há uma clínica do aprender, a medicalização aparece com força total e constrói-se uma crença que uma correção possa ser operada e uma normalidade se configure. Que normal é esse? Será que esta é mais uma tentativa de aniquilação subjetiva através dos encaminhamentos? Criam-se patologias para dar conta do que fracassou?
A psicologia com suas regras comportamentais e ajustes de conduta causou interferência na educação, emprestando um discurso que legitima um motivo exterior ao próprio ato de aprender, como sendo a questão, ou melhor, o problema. Interroga-se pouco, o trabalho não sofre inquietação pois está do lado de fora, não toma o professor, mas o assombra.
As instituições educacionais em nome da competição e do mercado, assumiram a postura do descartável, transformaram-se em pátios de lazer e entretenimento. Tratam os pais como clientes e os seus professores são esvaziados de conhecimento e de autoridade. Tudo é feito para atender às demandas, como se fosse possível respondê-las.
Aprender tem preço, não é um investimento qualquer e não se resume a acumulação de dados e informações. Freud nos diz que só pode ensinar aquele que está capacitado a entrar na alma do seu aluno. Ele nos dá assim uma bela definição do conceito de transmissão, que é repleto, de mal-entendidos, já que não há uma regra para efetuá-la, contando com a impossibilidade e os desencontros entre o emissor e o receptor. Há um inesperado que se apresenta e se faz presente. O que podemos pensar sobre o desejo de aprender? Como nos ensina a Psicanálise o desejo só se faz possível em função da falta constitutiva no campo do Outro, que dá ao sujeito o acesso à busca interminável de objetos . Só pode ensinar, ou melhor, transmitir aquele que causado pela falta sabe o quão insuficiente é o seu saber . O que verificamos é que este princípio fundamental para a transmissão parece não ser suportado. Nada pode faltar (ledo engano!). A falta é presente e se presentifica. Porém, com tantos e fortes objetos de obturação, o sujeito se apresenta apassivado, desmotivado. O desejo vacila.
Muitas escolas se cristalizam no encaminhamento. A criança está em / caminho caminhando, andando como pode fazê-lo, uma a uma com seus tropeços, corridas e pulos. Muitas vezes, os encaminhamentos atravessam o aluno, apontando-o como portador de um sintoma que comparece e faz barulho no contexto educacional. O aluno precisa ser escutado, o professor precisa ser escutado, dentro do seu espaço escolar, exatamente onde ele está!
Freud escutou, uma dimensão de linguagem no sintoma, que carrega uma mensagem inconsciente que solicita deciframento. O sintoma porta a verdade subjetiva particular do sujeito do inconsciente. Muitas vezes o aluno demanda um outro lugar onde possa falar de si, de sua história, de seus sintomas. O que não justifica a escola não tomar a sua parcela de responsabilidade frente ao aprender de cada aluno.
Não há receitas, não há um único método que possa garantir resultados. Mas há muitas saídas a serem descobertas, no trabalho coletivo dentro do espaço escolar. Aprendendo a caminhar, no passo possível (en) caminhando juntos quando necessário.
Ana Claudia Vieira Vaz
Psicanalista, participante da Escola Letra Freudiana, responsável pelo setor de Psicologia da Pestalozzi de Niterói, Vice-Diretora da ESEHA